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“Elza e Mané – Amor em Linhas Tortas” e a cadência de uma paixão conturbada

Mais do que em qualquer outro lugar do mundo, no Brasil, a combinação de música e futebol, com o perdão da irresistível escolha de palavras, “dá samba”. Há uma identificação, uma relação estreita entre esses universos que vai além do simples embalar de uma torcida empolgada. Na paixão entre a cantora Elza Soares e o jogador Mané Garrincha, esses mundos também se misturaram, porém, nesse caso de amor, a cadência da canção nem sempre foi construída por notas alegres.

Disponível em quatro episódios no Globoplay, a série documental “Elza e Mané – Amor em Linhas Tortas” revê o relacionamento conturbado entre a artista e o jogador. Antes de cruzarem o caminho um do outro, Elza e Garrincha tinham trajetórias com pontos em comum.

Ambos, além da origem humilde, contrariaram expectativas. Ele insistiu que poderia jogar futebol, mesmo desencorajado por ter as pernas tortas, que depois viraram uma marca, e ela perseverou como cantora, apesar das muitas dificuldades e discriminações que se colocavam como barreiras a uma mulher forte, negra e de periferia.

Não é nenhum exagero dizer que, no início dos anos 60, esse encontro entre a música e o futebol foi potente e ultrapassou as barreiras dos dois universos. Elza e Garrincha monopolizaram as atenções e foram alvos de toda sorte de reações. O jogador era casado e tinha nove filhas quando saiu de casa para viver com a cantora. Os defensores da “tradicional família brasileira” ficaram enfurecidos e condenaram a relação.

Patriarcal e machista, a sociedade foi mais compreensiva com Garrincha do que com Elza, que foi taxada de “destruidora de lares”, “desfrutável” e outros nomes menos publicáveis. Nessa “culpa” que recaiu sobre a cantora, também é possível identificar um componente de racismo, afinal, fomos e continuamos sendo um país que disfarça comportamentos preconceituosos e tenta justificar reações negando que a discriminação exista.

Apesar de todo ódio e violência provocados pelo relacionamento, Elza bancou tudo para viver intensamente essa paixão. Quando Garrincha, considerado a “Alegria do Povo”, já estava com a carreira em baixa, por conta das condições físicas e do alcoolismo, foi a cantora que seguiu estimulando e até mesmo agindo para que ele continuasse a jogar. No entanto, ela foi injustamente colocada em outra posição e acusada de prejudicá-lo e levá-lo ao fundo do poço.

O amor marginalizado entre Elza e Garrincha também provocou uma espécie de “guerra” cultural. Respondendo com ironia e cabeça erguida às acusações da opinião pública, a cantora gravou canções como “Amor Impossível” e “A Outra”, que remetiam aos julgamentos que sofria. “Respostas” ao relacionamento vinham do lado oposto e também em forma de canções, mas que defendiam a “família oficial” e pediam que o pai voltasse para casa.

Reprodução/Globoplay

A política também interferiu nesse amor. Às vésperas do Ato Institucional No. 5 (AI-5), uma das mais duras ferramentas de repressão da ditadura militar, Elza foi considerada persona non grata pelo regime por conta da participação em uma mobilização operária, mesmo não tendo muito clareza sobre essa atitude na época. O fato de ser taxado por muitos como um homem de “inteligência limitada” fez Garrincha ser considerado pela ditadura como alguém influenciável, facilmente manipulável por comunistas. Por tudo isso, o casal passou a ser ameaçado e decidiu morar na Itália por um período.

Além de tanto preconceito e perseguição, a série mostra como a relação de Elza e Garrincha ficou marcada pela violência. O jogador agrediu a cantora, que não titubeou em revidar. Depois disso, ela pegou o filho pelos braços e saiu de casa. A artista sempre atribuiu o comportamento agressivo do parceiro ao álcool e, apesar de não terem voltado a ficar juntos, seguiu reconhecendo que Garrincha sempre foi o grande amor da vida dela. Isso não a impediu de ter clareza sobre a gravidade da violência doméstica, causa que abraçou até o fim da vida.

Depois do forte abalo que sofreu com a morte do jogador, em 20 de janeiro de 1983, Elza ainda passaria por uma tragédia. Em 1986, aos nove anos, o filho que a cantora teve com Garrincha morreu em um acidente de carro. A artista, que já tinha enfrentado de tudo, precisou, mais uma vez, transformar a dor em arte para não enlouquecer.

“Elza e Mané – Amor em Linhas Tortas” divide bem os mundos da música e do futebol, da mesma forma que sabe destacar a força e as consequências dos momentos em que esses universos se misturam. Os episódios condensam com eficiência as fases do relacionamento e utilizam, para ilustrar, depoimentos esclarecedores e um acervo de imagens muito rico.

Responsável pela direção da série, Caroline Zilberman, que também assina o roteiro ao lado de Rafael Pirrho, faz uma investigação detalhada sobre as complexidades dessa história de amor tão conturbada e que provocou tantas mobilizações e julgamentos.

Da mesma forma que as canções românticas fazem poesia com a beleza de um amor tranquilo, também há músicas que falam de paixões conturbadas e marcadas por episódios trágicos. Corroborando as biografias dos personagens, “Elza e Mané – Amor em Linhas Tortas” mostra incontestavelmente uma relação amorosa intensa, mas que nem sempre foi feita de alegrias.

ELZA E MANÉ – AMOR EM LINHAS TORTAS

ONDE: Globoplay

COTAÇÃO: ★★★★ (ótima)

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