Novelas

“Um Lugar ao Sol”: personagens gente como a gente

Boa parte da mobilização que as novelas causam no público vem da disputa entre mocinhos e vilões, da representação do bem contra o mal. O maniqueísmo, ainda que não seja uma regra escrita em pedra, é praticamente um item básico dos folhetins. É interessante observar que “Um Lugar ao Sol”, trama de Lícia Manzo que entra na última semana, tenha escolhido o caminho menos comum para a construção dos personagens. Todos ali são falhos, confusos, turvos.

Ao longo da exibição da trama, muitas vezes, nas redes sociais, foram levantadas discussões sobre as escolhas e atitudes dos tipos criados pela autora, provocando, inclusive, uma confusão sobre torcer ou não por eles. Na semana passada, o desfecho de Stephany (Renata Gaspar) trouxe o tema novamente à tona. Vítima de violência doméstica, a personagem passou a trama entre idas e vindas com o marido agressor Roney (Danilo Granghéia) até tomar a decisão definitiva de acabar com a relação.

A história de Stephany passou, então, a ficar articulada com o enredo central da novela. Ela descobriu que Christian (Cauã Reymond) assumiu a identidade do irmão gêmeo, Renato, e passou a chantageá-lo para não revelar o segredo. Com isso, houve quem dissesse que essa escolha da autora invalidava a trama sobre violência doméstica, uma vez que a personagem passou para uma posição de “vilania”. Uma coisa não tem nada a ver com a outra.

Deslumbrada por dinheiro, a irmã de Érica (Fernanda de Freitas) assumiu um papel de chantagista, ignorando, inclusive, que tinha sido ajudada por Christian quando fugia do marido agressor, mas esse fato não serve como anulação do sofrimento da personagem, que tentava romper com um ciclo de violência e teve um destino trágico, como inúmeras mulheres que são vítimas de feminicídio nesse país.

Além de demonstrar uma cruel realidade, Stephany, a partir do momento em que foi inserida na farsa de Christian, ganhou outra função na história. O envolvimento com o protagonista, a atitude condenável e a morte dela serviram à trama para reforçar a escalada do irmão de Renato em revelar o pior lado dele.

Elenice (Ana Beatriz Nogueira) – Divulgação/TV Globo

Há outros exemplos que podem ser usados para essa análise da complexidade dos personagens de “Um Lugar ao Sol”. Elenice (Ana Beatriz Nogueira) passou a novela aplicando golpes, demonstrando preconceitos, mentindo e manipulando, mas, nas últimas semanas, foi diagnosticada com Mal de Alzheimer, o que a colocou em uma posição mais vulnerável. Isso faz com que o espectador, que já tem conhecimento do caráter da mãe de Renato, adquira um olhar mais próximo e humano sobre ela.

Bárbara (Alinne Moraes), taxada como vilã no início da novela, talvez seja uma das personagens mais complexas. Preconceituosa, elitista, egoísta e irresponsável são algumas palavras que podem ser usadas para defini-la, mas também não conseguimos ignorar que a personagem convive com um histórico de transtornos mentais e falta de atenção na infância, além, é claro, do abuso emocional ao qual foi submetida durante o relacionamento tóxico com o falso Renato.

Até mesmo personagens que, a princípio, foram vendidos como virtuosos, como Ravi (Juan Paiva), Santiago (José de Abreu) e Rebeca (Andréa Beltrão), em algum momento, fizeram escolhas erradas ou provocaram algum mal, mesmo que não tenham tido a intenção. Os tipos de “Um Lugar ao Sol” têm índoles bem definidas, mas todos falham, são revirados por sentimentos contraditórios e tomam decisões que nem sempre fazem bem aos outros.

A iniciativa da autora e a qualidade da construção dos personagens merecem todos os elogios, ainda que uma parcela do público aponte certa confusão para julgar ou torcer por esses tipos. Essa aposta em personalidades menos planas, que já acontece em produtos como as séries, por exemplo, só enriquece a experiência do espectador com a história.

Nós, como público, talvez nos apeguemos facilmente ao maniqueísmo porque ele mostra pessoas melhores, aquelas que desejamos ser, ou piores do que somos, o que, de alguma forma, nos alivia ou desculpa. “Um Lugar ao Sol” tem personagens mais profundos e menos definíveis pelo tradicional maniqueísmo. São virtuosos, porém falhos; ou condenáveis e, ao mesmo tempo, dignos de alguma compaixão. Não são heróis e nem vilões. São apenas gente como a gente.

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