Logo depois de escrever “Sete Vidas”, em 2015, a autora Lícia Manzo concedeu uma entrevista à jornalista Bianca Ramoneda, no programa “Ofício em Cena”, da Globo News, para falar sobre os processos de escrita de uma novela. Na ocasião, ela falou sobre não economizar esforços e criatividade para construir uma história. “Um Lugar ao Sol”, folhetim que terminou nesta sexta-feira (25), foi mais um trabalho que deixou evidente essa característica da novelista.
Desde o primeiro capítulo, Lícia mostrou não estar interessada em seguir pelo caminho mais fácil. Quando todos esperavam que a autora escrevesse uma história tradicional de gêmeos, um clássico da nossa teledramaturgia, ela escolheu matar Renato (Cauã Reymond) e apostar na trajetória de Christian (também Reymond), que assumiu a identidade do irmão e, aos poucos, foi revelando um lado menos virtuoso.
Enquanto os espectadores esperavam que Christian fosse desmascarado por algum dos chantagistas que encontrou pelo caminho ou por outro personagem que descobrisse seu segredo, mais uma vez, a autora contrariou o óbvio e escolheu a opção mais complexa. A revelação da farsa só veio no último capítulo e para marcar a responsabilização do protagonista pelas atitudes condenáveis que tomou ao longo da trama.
Ainda que gere críticas e isso possa se refletir na audiência, essa quebra de expectativas é muito positiva para o espectador, que entra em contato com uma história contada sob um ponto de vista que tenta fugir dos vícios do gênero, que acabam direcionando o olhar do público. “Um Lugar ao Sol” não foi uma trama habitual de gêmeos e Christian tão pouco teve uma jornada convencional.
A autora também se manteve fiel a outra característica marcante de novelas anteriores: a complexidade dos personagens. Mesmo com índoles bem definidas, os tipos construídos por Lícia têm uma profundidade nem sempre vista nos folhetins. Evitando rótulos como de “mocinho” ou “vilão”, ela desenha personalidades que são capazes de atitudes condenáveis e, ao mesmo tempo, têm comportamentos positivos ou são dignos de alguma compaixão. Como já abordado aqui, os personagens de “Um Lugar ao Sol” foram gente como a gente.
A qualidade dos diálogos de Lícia Manzo sempre chamou atenção e isso não foi diferente na estreia da autora no horário das 21 horas. Habilidosos em elaborar sentimentos, os personagens se desnudaram diante do público a partir de falas envolventes e que revelavam a personalidade e as angústias deles, sem apelar, em nenhum momento, para o didatismo.
Etarismo, síndrome de Down, gordofobia, maternidade, adoção, transtornos mentais e racismo foram alguns dos temas levantados pela novela. Ao invés de surgirem como “campanhas”, esses debates foram inseridos nas rotinas dos personagens e isso só trouxe mais força para as histórias e questões suscitadas.
“Um Lugar ao Sol” teve, ainda, um elenco acima da média e que engrandeceu a novela. Para citar apenas alguns, Cauã Reymond, Alinne Moraes, Ana Beatriz Nogueira, Andréia Horta, Marieta Severo, Andréa Beltrão, Otávio Müller, Mariana Lina, Denise Fraga e Juan Paiva estiveram ótimos. A direção inspirada, comandada por Maurício Farias, também merece reconhecimento.

Pandemia e erros de planejamento
A pandemia se apresentou como um grande obstáculo para “Um Lugar ao Sol”. A trama foi ao ar totalmente gravada, por conta das restrições e protocolos impostos pela disseminação do coronavírus. Assim, o principal produto de dramaturgia da TV Globo, sempre uma obra aberta, acabou sendo exibido sem considerar a resposta do público e restringindo qualquer adequação à edição.
A novela foi bastante prejudicada por erros de planejamento. Lançada em novembro do ano passado, em um período reconhecidamente complicado, por conta da proximidade das festas e do verão, “Um Lugar ao Sol” encontrou muitas dificuldades para emplacar. Isso sem contar o fato de os primeiros capítulos terem sido exibidos em uma época de jogos da Seleção Brasileira, que alteraram a programação com frequência. Televisão, apesar das mudanças tecnológicas, ainda é um hábito e não ajuda quando o público não encontra o produto no horário convencional, ainda mais na fase inicial.
“Um Lugar ao Sol” teria, inicialmente, pouco mais de 150 capítulos, mas, antes mesmo de entrar no ar, foi reduzida para 107. Com a pandemia e o atraso nas gravações de “Pantanal”, a sucessora no horário, foi necessário esticar a trama em uma semana. Pelo fato de estar toda gravada, isso foi feito na edição, o que prejudicou e muito o ritmo do roteiro, forçando a produção a desconsiderar os ganchos criados pela autora e, até mesmo, fabricar novos.
Aprovada na gestão anterior do departamento de dramaturgia da emissora, comandado à época por Sílvio de Abreu, “Um Lugar ao Sol” ainda lidou com uma divulgação inicial pouco eficiente, o que também impactou na estreia e no interesse inicial do público. “Pantanal”, por exemplo, vendida como a primeira grande aposta sob o comando do novo diretor do setor, José Luiz Villamarim, recebeu mais atenção de marketing e estratégia para o lançamento.
Não dá para deixar de pensar na possibilidade de a pandemia ter imposto restrições criativas à história. A rotina de gravações nesse período pode ter exigido adequações de sequências e limitado a movimentação de núcleos e personagens, o que justificaria repetições de dinâmicas na trama.
Com “Um Lugar ao Sol”, Lícia Manzo escolheu ignorar o caminho mais fácil e, mais uma vez, privilegiou decisões criativas que valorizaram a complexidade dos personagens e qualidade do texto. Ainda que tudo isso não tenha agradado boa parte da audiência, a novela deixa boas contribuições para o gênero, que não precisa ser excessivamente explicativo e ceder ao óbvio.
