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“Pantanal”: sete curiosidades sobre clássico que inspirou remake da Globo

Belezas naturais arrebatadoras, uma saga familiar envolvente, uma mulher que vira onça e um velho místico que se transforma em sucuri. Misturando a força da natureza e o fantástico, “Pantanal”, novela de Benedito Ruy Barbosa exibida pela TV Manchete em 1990, entrou para a história da televisão brasileira e conquistou espaço na memória de muitos espectadores.

Esse elemento afetivo ajuda a entender o burburinho que o anúncio do remake da novela provocou. Cercada de expectativas, a nova versão, assinada por Bruno Luperi, neto de Barbosa, estreou, na semana passada, chamando atenção do público que acompanhou a história há pouco mais de 30 anos e apresentando os personagens para uma fatia da audiência que não se interessou ou não era nascida na época.

A saga dos Leôncio e de Juma Marruá, a mulher-onça, foi construída em um ritmo contemplativo e ilustrada por belos momentos da vida naquele bioma. Antes de se tornar um sucesso da teledramaturgia brasileira, talvez o maior fora da TV Globo, “Pantanal” chegou a ser rejeitada pela emissora carioca. A comprovação da força da história incomodou a concorrência e provocou uma série de mudanças na programação da época.

Hoje, o remake de “Pantanal” é encarado como uma retomada dos clássicos do gênero, das grandes histórias que marcaram o público. Para entender melhor esse fenômeno, vale a pena relembrar sete curiosidades que esclarecem detalhes sobre o desenvolvimento e as influências da trama na nossa teledramaturgia.

Juma Marruá (Cristiana Oliveira) – Divulgação

Origem da trama

Sempre interessado pelo interior do Brasil, Benedito Ruy Barbosa recebeu um convite para passar uns dias no hotel que o cantor Sérgio Reis construía no Pantanal. Já instalado, em uma noite de calor, o autor decidiu deitar em uma espreguiçadeira, na beira de uma lagoa, e adormeceu.

Na manhã seguinte, ele foi acordado pelo anfitrião e descobriu que aquilo poderia ter acabado mal. Reis disse que havia chance do hóspede ser pego e arrastado por uma sucuri para dentro d´água. Depois de saber que o artista construiria mais oito chalés no local, Barbosa fez um pedido ao dono do hotel. “Bicho, faz para 75 pessoas que eu gravo uma novela aqui”, relatou o novelista em entrevista para o livro “A Seguir, Cenas do Próximo Capítulo”. Dito e feito. “Pantanal” começou a ganhar forma.

Velho do Rio (Cláudio Marzo) – Divulgação

Projeto rejeitado pela Globo

Influenciado pela paisagem, pescarias e modas de viola, Barbosa criou a história de “Pantanal” e apresentou o projeto a José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, todo-poderoso da Globo na época. Por conta das dificuldades de gravar uma novela toda na região, o executivo pediu que o diretor Herval Rossano, chefe de núcleo do horário das 18 horas, avaliasse a logística para a gravação de externas e construção de uma cidade cenográfica.

Em entrevista a Flávio Ricco e José Armando Vannucci, no livro “Biografia da Televisão Brasileira”, Barbosa contou que uma série de incidentes marcaram essa análise de viabilidade, entre eles, a quase queda de um jatinho que levava a equipe para conhecer o Pantanal. A aeronave perdeu estabilidade por conta de uma briga entre o autor e Rossano.

No livro “A Seguir, Cenas do Próximo Capítulo”, o novelista afirmou que, quando a equipe chegou, o Pantanal estava em uma fase de cheia, período em que, segundo Barbosa, nem os jacarés aparecem. Diante de tudo isso e de uma estimativa de custos alta, a Globo abriu mão do projeto. Insistindo na novela, o autor pediu demissão e foi para a Manchete.

Guta (Luciene Adami) e Filó (Jussara Freire) – Divulgação

Ritmo contemplativo e belas imagens

Além do texto de Barbosa, a direção de Jayme Monjardim ajudou a estabelecer um ritmo contemplativo à trama. Os diálogos e a relação entre os personagens eram construídos na velocidade daquele estilo de vida, menos atribulado do que na cidade.

Entre uma cena e outra, o espectador acompanhava belas imagens de aves voando e do sol se pondo na região, registradas com uma fotografia cinematográfica e pouco usual na televisão. Tudo isso era mostrado com calma, levando o espectador para outro estado de espírito, algo que o remake também tem procurado fazer.

Maria Bruaca (Ângela Leal) e Alcides (Ângelo Antônio) – Divulgação

Nudez e contexto

Os romances de “Pantanal” ficaram marcados por cenas de muita sensualidade. Algumas vezes, os atores chegavam a aparecer nus, o que, para alguns, era um atrativo para acompanhar a novela. Uma parcela mais conservadora da audiência, no entanto, classificou a produção como apelativa.

Um encontro com freiras que eram fãs de “Pantanal” fez o autor concluir que tudo é permitido em dramaturgia, desde que justificado e registrando um costume. Em depoimento ao livro “Biografia da Televisão Brasileira”, Barbosa declarou que as religiosas foram autorizadas a ver a trama depois que a madre superiora concluiu que as cenas representavam “algo puro, coisa da natureza”.

Juma (Cristiana Oliveira) – Divulgação

Sucesso de audiência

Não demorou para “Pantanal” fazer sucesso e incomodar a Globo. Os capítulos da novela começavam logo após o fim de “Rainha da Sucata”, que a concorrência exibia no horário das 20 horas. Marcando mais de 30 pontos de audiência, a trama de Barbosa prejudicou a linha de shows da Globo e resultou no fim da “TV Pirata”, humorístico exibido na época.

Os executivos da Globo começaram a pensar em soluções para conter a perda de público. Optou-se, então, por esticar os capítulos de “Rainha da Sucata” e, logo em seguida, criar um novo horário de novelas. Assim, às 21h30, entrou no ar “Araponga”, de Dias Gomes, que passou a concorrer diretamente com “Pantanal”. A estratégia não deu certo e a faixa foi extinta logo depois dessa exibição.

Pensando na audiência minuto a minuto, a Globo também acabou com a tradição de anos de apresentar cenas dos próximos capítulos ao final das produções, reduzindo as chances de o público migrar para “Pantanal”. Todos os esforços não pararam a produção da Manchete, que chegou a 41 pontos de audiência no último capítulo e terminou com 34 pontos de média, um recorde para a teledramaturgia da emissora.

Benedito Ruy Barbosa – Reprodução/Memória Globo

Autor das oito

Até deixar a Globo para fazer “Pantanal”, Barbosa escrevia para o horário das 18 horas e tinha emplacado vários sucessos, entre eles, “Cabocla” e “Sinhá Moça”. O êxito da novela da Manchete mudou o novelista de categoria e, quando voltou à emissora carioca, foi deslocado para a faixa das 20 horas.

A primeira novela que Barbosa escreveu após a volta à Globo foi “Renascer”, trama que tem pontos em comum com “Pantanal”. Também para a faixa das oito, o autor criou, em seguida, grandes sucessos da teledramaturgia brasileira, como “O Rei do Gado” e “Terra Nostra”.

Abertura da reprise no SBT – Reprodução

Reprise conturbada

Por conta do sucesso arrebatador, “Pantanal” foi reprisada duas vezes pela Manchete: entre 1991 e 1992; e entre 1998 e 1999. Anos depois da falência da emissora, o SBT adquiriu as fitas originais da novela em um leilão judicial da massa falida da empresa e reexibiu o folhetim, em 2008, com cortes.

A reprise colocada no ar pela emissora de Sílvio Santos foi conturbada. A Globo, que havia adquirido os direitos da obra dois anos antes da reapresentação, entrou com uma ação contra o SBT. O autor de “Pantanal” também acionou judicialmente o canal para ser indenizado. Barbosa ainda criticou a edição feita no material. “O Sílvio Santos matou a novela! Ele cortou quase 40% das cenas. Não havia condições técnicas de reprisar a novela porque as fitas não foram guardadas na temperatura adequada”, disse o novelista a André Bernardo e Cíntia Lopes, autores do livro “A Seguir, Cenas do Próximo Capítulo”.

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