Mesmo quando não tem a intenção de inventar a roda, uma narrativa precisa ter progressão ou modificar a dinâmica entre os personagens para não parecer estagnada ou repetitiva. No caso das séries, que necessitam que o espectador se mantenha interessado por várias temporadas, isso é ainda mais importante. “Bridgerton”, disponível na Netflix e produzida por Shonda Rhimes, escolhe se repetir e isso acaba demonstrando um desgaste da história já na segunda temporada.
Nos oito episódios do segundo ano, “Bridgerton” é sustentada pelo amor hesitante entre Anthony Bridgerton (Jonathan Bailey) e Kate Sharma (Simone Ashley). Inicialmente, o visconde, agarrado a alguns traumas, refuta qualquer envolvimento amoroso e vê o casamento como um negócio, enquanto a filha mais velha de Lady Mary Sharma (Shelley Conn) só quer saber de arranjar um bom partido para a irmã, Edwina (Charithra Chandran), que está sendo apresentada à sociedade.
Eleita o “diamante” da rainha Charlotte (Golda Rosheuvel), o mesmo que ser considerada uma promessa ou a mais preciosa entre as garotas que estão debutando na corte, Edwina se encanta por Anthony. Ela ignora, no entanto, que a irmã mais velha é apaixonada por ele e insiste em conquistá-lo. Influenciada pelos constantes atritos que tem com o visconde e vendo o encantamento de Edwina pelo pretendente, além de guardar segredo sobre uma situação que pode ser resolvida com a união, Kate tenta sufocar os próprios sentimentos.
Em conflito com as promessas que fez a si mesmo no passado, Anthony também tenta acreditar que o casamento com Edwina é o melhor para ele. Depois que o compromisso é assumido e os convites são enviados, esconder o amor que sente pela irmã da noiva vai se tornando algo praticamente impossível, tanto que alguns olhares mais atentos descobrem a força dessa paixão.
Os clichês românticos estão presentes em “Bridgerton” desde a primeira temporada e esse fato em si não chega a ser um problema. Ocorre que os novos episódios apostam em uma narrativa que é sustentada pela mesma dinâmica vista no ano anterior. O casal Anthony e Kate se apaixona de maneira avassaladora, mas tem uma relação conflitante e estabelece um jogo de gato e rato, assim como o amor de Simon (Regé-Jean Page) e Daphne (Phoebe Dynevor).

Essa repetição de dinâmica não aparece apenas na base da narrativa, mas também nas características dos casais, que guardam várias semelhanças, mesmo havendo um esforço para mudar a “embalagem”. Com isso, a série, que já não era muito criativa, deixa uma forte impressão de desgaste e provoca dúvidas sobre o fôlego da história futuramente, uma vez que há outros Bridgertons para protagonizar a produção.
Justiça seja feita, o romance central não é o único a sofrer com as repetições. Penélope (Nicola Coughlan) ganha espaço depois da revelação de que ela está por trás do pseudônimo Lady Whistledown, a colunista de fofocas da corte, mas o segredo e os conflitos internos que a jovem tem só rendem uma trama que se arrasta e quase não sai do lugar. A determinação de Eloise (Claudia Jessie) e da rainha para descobrir a identidade da autora do indiscreto periódico pouco evolui em relação à temporada anterior e também cansa.
Penélope e Eloise sempre foram boas coadjuvantes, mas as escolhas do roteiro prejudicaram e muito o interesse pelos conflitos delas. A segunda temporada também desperdiçou as participações da rainha Charlotte e de Lady Danbury (Adjoa Andoh), reduzidas a um limitado papel de alcoviteiras. Os episódios jogam fora, ainda, a trama de Portia (Polly Walker) e do novo Lord Featherington (Rupert Young), que surge tarde demais e acaba explorada superficialmente.
Assim como no primeiro ano, “Bridgerton”, com as limitações criativas que apresenta, continua se beneficiando do carisma dos personagens. São as características e as relações entre eles que, de alguma forma, ainda mantém o interesse pela série, algo que também está relacionado ao desempenho dos atores. Jonathan Bailey e Simone Ashley, por exemplo, funcionam muito bem juntos e é essa química que deixa o espectador envolvido pela paixão e tensão sexual exalados pelo casal.
O fato de ter protagonistas diferentes a cada temporada é um trunfo para a série, porém, se não houver o mínimo de criatividade para evitar que as dinâmicas entre os personagens se repitam, “Bridgerton” vai acabar num tédio só. A produção segue bonita e caprichada, mas a embalagem não faz diferença se o presente for o mesmo todo ano.
BRIDGERTON (segunda temporada)
ONDE: Netflix (todos os episódios disponíveis)
COTAÇÃO: ★★ (regular)
