Novelas

“Pantanal” tem tudo para marcar nova geração de espectadores

Não é incomum encontrar alguém que associe uma lembrança pessoal a um programa ou novela marcante. “Pantanal”, um clássico da teledramaturgia dos anos 90, criou essa memória afetiva em muitos espectadores, que, quando souberam da nova versão, não demoraram a comemorar e relembrar com carinho da idade que tinham na época que a trama da TV Manchete foi levada ao ar; da companhia dos pais e outros familiares durante a exibição dos capítulos; e, claro, do prazer de acompanhar a história da mulher que vira onça.

Mais de 30 anos depois da versão original, “Pantanal” ganha, agora, um remake que resgata a história escrita por Benedito Ruy Barbosa e cria uma oportunidade para que um novo público possa ter contato com a riqueza do universo construído pelo autor, reforçado por uma necessária atualização de temas e personagens.

Em 14 capítulos, a primeira fase da novela mostra a chegada de Joventino (Irandhir Santos) e José Leôncio (Renato Góes) à região do Pantanal. Ali, pai e filho adquirem terras e passam a criar bois, começando o que, mais adiante, se transforma em um império. Antes disso, no entanto, Joventino desaparece misteriosamente e se transforma no Velho do Rio (Osmar Prado), uma entidade que se esgueira pela mata, assume a forma de uma sucuri e protege a natureza.

Sozinho, José Leôncio passa a tocar as terras e a criação dos animais. Durante uma viagem ao Rio de Janeiro, ele se apaixona por Madeleine (Bruna Linzmeyer), que, em um ímpeto, aceita casar com ele. Logo depois da cerimônia, as personalidades e os estilos de vida opostos do casal geram uma crise, que se agrava com a convivência diária deles no Pantanal.

Maria Marruá (Juliana Paes) – Divulgação/TV Globo

Logo que o filho Jove nasce, a insatisfação de Madeleine com o mundo do marido faz com que ela fuja da fazenda com a criança. Quando descobre, José Leôncio tenta levar o garoto de volta, mas é convencido de que a vida na cidade seria melhor para a criação do menino. O encontro de pai e filho só volta a acontecer mais de 20 anos depois.

A primeira fase de “Pantanal” também destaca a saga de Gil (Enrique Diaz) e Maria Marruá (Juliana Paes), que deixam uma vida como boias-frias no Paraná em busca de um recomeço no bioma da região Centro-Oeste do país. Isolados em uma tapera nas terras de José Leôncio, os dois são alvos de uma família que deseja cobrar uma dívida de sangue. Quando nasce Juma, a filha do casal, Maria descobre que é capaz de virar literalmente uma onça para defender a cria.

Responsável pela adaptação, Bruno Luperi, neto de Barbosa, sustenta a nova versão na valorização do trabalho do avô, que criou um material muito rico e de cerne atemporal. A mistura da forte história familiar com o lado fantástico, representado pela natureza e pelas lendas retratadas, justificam o êxito do folhetim original e mostram que a obra ainda tem potencial para atingir um novo público que não era nascido ou simplesmente não acompanhou a trama em 1990.

Até aqui, com a segunda fase de “Pantanal” ainda no início, Luperi não só exalta as qualidades do texto do avô, mas também demonstra cuidado na atualização da história. Da construção da nova narrativa, que desenha melhor motivações e personagens, até o aprofundamento de temáticas, o autor prova ter respeito pelo material original e coragem para fazer os ajustes necessários.

Velho do Rio (Osmar Prado) – Divulgação/TV Globo

Seguindo um tom imposto pelo texto, o diretor artístico da nova versão, Rogério Gomes, consegue traduzir em imagens a beleza das paisagens e a densidade dos conflitos. Roteiro e direção criam, para o espectador, uma hora diária de contemplação em meio a uma vida de ritmo frenético. Enquanto “Pantanal” está no ar, mergulhamos em um mundo que se impõe com firmeza e gira em uma velocidade própria.

O elenco da nova versão da novela é tão bom que parece injusto destacar apenas alguns nomes. Mesmo correndo esse risco, não dá para deixar de mencionar a qualidade dos trabalhos de Irandhir Santos, Renato Góes, Juliana Paes, Enrique Diaz, Leopoldo Pacheco, Selma Egrei, Bruna Linzmeyer, Letícia Salles, Malu Rodrigues e Osmar Prado. Nesse início de segunda fase, merecem elogios os desempenhos de Camila Morgado, Dira Paes, Karine Teles, Julia Dalavia, Marcos Palmeira, Bella Campos, Murilo Benício e de Alanis Guillen, a nova Juma.

Levando em conta o que foi ao ar e considerando alguma prudência para não cravar nenhum julgamento definitivo, já é possível dizer o remake de “Pantanal” tem tudo para cativar aqueles que buscam uma boa novela para acompanhar. Valorizando a força da história, a versão atual tem potencial para, assim como a original, criar um laço afetivo com uma nova geração de espectadores, que, no futuro, também poderá associar memórias a esse universo tão marcante.

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