Por mais que não possam ou não devam admitir em voz alta, muitos patrões adorariam que os funcionários não tivessem preocupações ou situações da vida fora do ambiente de trabalho para lidar. Doenças, angústias, conflitos familiares, tudo o que possa tirar o foco da função que precisa ser desempenhada é visto como um problema. A verdade é que esse mundo corporativo, que usa de maneira hipócrita termos como time e colaborador, ainda é apegado a ideias ultrapassadas e equivocadas que privilegiam friamente produtividade e lucro.
Esses mesmos patrões que se incomodam com as questões humanas dos funcionários ficariam empolgados se pudessem dispor do procedimento ao qual os personagens da série “Ruptura” são submetidos para trabalhar em uma corporação misteriosa. Na produção da Apple TV+, aqueles que se propõe a atuar na empresa precisam passar por um processo que isola as memórias do trabalho e da vida pessoal.
Através de uma espécie de chip, o cérebro ganha uma bifurcação que separa a consciência do funcionário. Por conta disso, enquanto ele está nas dependências da empresa, não consegue lembrar de nenhum detalhe da vida fora do escritório, nem mesmo se tem família ou conflitos internos com os quais deve se preocupar. O único foco é o trabalho, que ninguém tem plena consciência do que seja.
“Ruptura” começa com a chegada de uma nova funcionária ao setor de processamento de macrodados. Submetida ao procedimento padrão, Helly (Britt Lower) não entende os motivos que levaram sua personalidade externa a aceitar o emprego. Por conta disso, ela resiste ao treinamento dado por Mark (Adam Scott), que acaba de assumir o departamento depois da “aposentadoria” do antigo ocupante do cargo.
Fora do escritório, Mark leva uma vida pacata e praticamente solitária. É estimulado pela irmã Devon (Jen Tullock) a se envolver com outras pessoas depois da morta da esposa, episódio que gerou o comportamento recluso. Foi essa tragédia, inclusive, que fez com que o personagem escolhesse ser submetido ao procedimento de ruptura, assim ele teria algumas horas do dia para não pensar na tristeza.
A chegada de Helly e a disposição dela em abandonar o emprego, ainda que pareça impossível, modificam a rotina do departamento de Mark. Além de trazer à luz algumas práticas duvidosas da companhia, que se comporta quase que como uma seita, os funcionários começam a se dar conta de tudo o que estão ignorando das vidas fora do escritório.

“Ruptura” é aquele tipo de série sobre a qual é melhor saber o mínimo possível antes de começar a ver. A história começa como uma sátira de ficção científica, mas logo esse estilo dá lugar a um suspense muito bem construído e que deixa o espectador imóvel em frente à tela. A narrativa, que cresce progressivamente, instiga quem assiste a consumir os episódios um atrás do outro e, no fim, causa desespero pela descoberta dos acontecimentos que só serão vistos na segunda temporada, ainda sem data de lançamento.
Por trás da ficção científica de “Ruptura”, há críticas e reflexões fundamentais sobre as formas com as quais nos relacionamos com nossos trabalhos. Em tom de sátira, o roteiro destaca comportamentos tóxicos estimulados por empregadores nos ambientes corporativos e retrata como limites são ultrapassados e provocam situações de abuso, ainda que estejam disfarçadas de gentileza e compreensão. Estímulo à competitividade, falsas gratificações, assédio moral, subvalorização, está tudo ali.
A verdade é que, mesmo sem o procedimento de ruptura, na vida real, muita gente já tenta compartimentar as experiências pessoais e profissionais. Há quem crie personas ou justificativas para aturar empregos dos quais não gostam, desempenhando funções que nem entendem bem. O resultado disso é um sem-número de profissionais frustrados, estafados mentalmente e sem qualquer perspectiva de futuro.
O elenco de “Ruptura” é um acerto incontestável. Adam Scott, Britt Lower, Zach Cherry, Jen Tullock e Michael Chernus estão ótimos, assim como as participações de John Turturro e Christopher Walken. Patricia Arquette e Tramell Tillman se destacam como diretores da corporação que realiza o procedimento nos funcionários. Quem também impressiona é Ben Stiller, que, desta vez, fica restrito às funções de produtor e diretor, que exerce com muita competência.
O título desse texto é, evidentemente, uma provocação. “Ruptura” tem recebido elogios da crítica e chamado cada vez mais a atenção do público. Ainda não dá para dizer, no entanto, que seja um sucesso popular, talvez pelo alcance da plataforma. Se estivesse, por exemplo, na HBO Max ou Netflix, já estaria sendo festejada como “Westworld” ou “Dark” foram nas estreias. Essa ficção científica, que vai da sátira ao suspense e tem muito a dizer sobre a nossa realidade, é uma produção que merece ser vista.
RUPTURA (primeira temporada)
ONDE: Apple TV+
COTAÇÃO: ★★★★ (ótima)
