Quando uma história faz muito sucesso e conquista fãs, é perfeitamente compreensível que eles se entusiasmem para ver cada vez mais conteúdo sobre aquele universo. Imaginar como os personagens estavam antes da narrativa começar e produzir teorias sobre detalhes que, muitas vezes, são apenas mencionados ou usados para justificar movimentos passa a ser um passatempo para o público.
Toda essa curiosidade fica no campo da fantasia até que o estúdio ou plataforma que produziu a ficção, deslumbrado com o êxito, decida lançar produtos derivados para faturar o quanto pode com o universo. Dessa exploração comercial, podem surgir propostas sólidas, que expandem o alcance de conceitos e personagens, ou histórias genéricas e oportunistas. “Obi-Wan Kenobi”, disponível no Disney+, faz parte desse último grupo.
Explorando mais uma lacuna de “Star Wars”, saga criada por George Lucas, a série de seis episódios está localizada entre os filmes “A Vingança dos Sith” e “Uma Nova Esperança”, período em que os jedis já são considerados extintos e o Império se fortalece na galáxia. Obi-Wan (Ewan McGregor) vive exilado em Tatooine e acompanha, a uma certa distância, o crescimento de Luke Skywalker (Grant Feely).
O jedi é obrigado a deixar o esconderijo quando a princesa Leia (Vivien Lyra Blair), adotada como filha pelo senador Organa (Jimmy Smits), é sequestrada. O rapto da garota é arquitetado por Reva (Moses Ingram), integrante de um grupo denominado Inquisidores, que, sob o comando de Darth Vader (voz de James Earl Jones), caça alguns poucos jedis que resistiram ao golpe que ascendeu o Império ao poder.
Mesmo hesitando no começo, Obi-Wan parte ao resgate de Leia e, nessa jornada, descobre um grupo que resiste ao controle imperial. Também na missão, ele revive o passado com o antigo aprendiz Anakin (Hayden Christensen) e fica, mais uma vez, cara a cara com o vilão que o amigo se tornou.

“Obi-Wan Kenobi” é uma prova incontestável de que, nem sempre, o público precisa conhecer posteriormente e em detalhes os acontecimentos que são apenas mencionados ou sugeridos em um universo como o de “Star Wars”. Parte do trabalho de um contador de histórias é saber o que ele não tem que contar, o que é menos importante naquele contexto.
A série sobre Obi-Wan ignora tudo isso e tenta preencher a lacuna deixada pela saga com um enredo genérico e que amontoa ideias já bastante aproveitadas nos filmes e demais produtos que derivaram deles. Do conceito dos Inquisidores à aproximação do protagonista com Leia e Luke, nada ali contribui para a expansão do universo e nem mesmo cria um entretenimento que empolgue.
Mais ainda: criando situações para que Obi-Wan e Darth Vader se reencontrem e tenham um novo embate, a produção acaba banalizando a rivalidade entre eles e, até mesmo, a aura dos personagens. Reduzir a distância entre mestre e aprendiz, que alimentava as questões mal resolvidas da relação, enfraquece não só a potência do encontro deles em “Uma Nova Esperança”, mas também a batalha que eles travam na série.
“Obi-Wan Kenobi” ainda desperdiça personagens que poderiam render mais, como Haja (Kumail Nanjiani), Tala (Indira Varma) e Reva, ainda que a construção e função deles na história repita dinâmicas já exploradas em outros produtos derivados da saga.
Ainda é incerto se “Obi-Wan Kenobi” termina como minissérie, da maneira que foi concebida desde o início, ou se vai se arrastar para uma segunda temporada, possibilidade já levantada pelos produtores e elenco. Tomara que fique só nisso. Criativamente oca e feita para engordar o catálogo do Disney+, a produção só reforça que nós não precisamos saber de todos os detalhes da história pregressa dos personagens que gostamos. Às vezes, imaginar é melhor.
OBI-WAN KENOBI (minissérie em seis episódios)
ONDE: Disney+
COTAÇÃO: ★ (ruim)
