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“Maldivas” desperdiça principal qualidade e privilegia mistério batido

A sátira, quando feita com propósito e inteligência, é um ótimo recurso para chamar atenção e provocar reflexões sobre ideias e costumes de pessoas ou comunidades. Rica em possibilidades, é capaz de produzir críticas potentes e relevantes a partir da ironia e do humor. “Maldivas”, série brasileira da Netflix, demonstra muito potencial para explorar o estilo, mas decepciona quando escolhe fazer dele apenas um suporte para uma trama batida e nada interessante.

Maldivas é um condomínio de luxo localizando na Barra da Tijuca, na zona oeste do Rio de Janeiro. Ele é o destino de Liz (Bruna Marquezine), que sai de uma fazenda, em Goiás, para reencontrar Patrícia Duque (Vanessa Gerbelli), a mãe que ela não vê desde criança. A personagem chega ao local justamente quando o apartamento de Patrícia é consumido por um incêndio.

A polícia encontra um corpo e passa a investigar se o fogo foi criminoso, concentrando as suspeitas em três moradoras do condomínio: Milene (Manu Gavassi), Kat (Carol Castro) e Rayssa (Sheron Menezes), as últimas pessoas vistas na porta do apartamento de Patrícia. Escondendo o parentesco com a vítima, Liz também começa uma investigação para descobrir quem teria motivos para matar a mãe dela.

Nos sete episódios da primeira temporada, “Maldivas” mostra um viés satírico, mais do que interessante, oportuno. O texto ironiza uma elite brasileira descolada da realidade do país, focada nos próprios interesses e moralmente hipócrita. Também é feito um retrato da política que passa pelo discurso armamentista, envolvimento de autoridades com milícias e pelas práticas de corrupção.

Divulgação/Netflix

Essa ironia está presente, ainda, na estética da série. A ambientação do condomínio, as cores e os figurinos remetem a um certo deslumbre que essa elite tem com o que é estrangeiro. De alguma forma, além de ostentar o poder econômico, isso cria uma redoma que isola a classe da realidade e provoca uma revolta dessas pessoas quando um elemento que está fora, como a violência e a desigualdade, fura essa bolha de futilidade.

É uma pena, no entanto, que “Maldivas” escolha apenas flertar com essa crítica pertinente, utilizando-a apenas como um suporte para a história central. Ao invés de valorizar essa característica para compor o enredo, o roteiro escolhe fazer disso um mero detalhe para dar espaço a um mistério que, além de clichê, não empolga em nenhum momento.

Não bastasse essa fórmula batida e, no caso, desnecessária, de crime e suspeita, a produção também opta pela narração de uma personagem em off para conduzir o espectador. Esse é um recurso que, se não for empregado com inteligência e para agregar informação, acaba empobrecendo a história por ficar restrito a repetir algo que o público já está vendo, que é o que acontece com a série.

O olhar afiado para essa elite brasileira merecia mais destaque em “Maldivas”. Escolhendo não se aprofundar na sátira e ignorar as possibilidades criativas que ela traria, a série acaba privilegiando uma trama recorrente e que quase não desperta curiosidade. Uma escolha que frustra diante de tanto material que a realidade vem produzindo.

MALDIVAS (primeira temporada)

ONDE: Netflix

COTAÇÃO: ★★ (regular)

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