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“Stranger Things” mostra desgaste e se arrasta rumo à quinta temporada

Terminar no auge ou prolongar um sucesso ao máximo? Eis a questão. Saber quando colocar o ponto final em uma história é tão importante quanto definir a forma de contá-la. O êxito dela, no entanto, pode levar à decisão de espremer até a última gota de caldo. Com a quarta temporada concluída, “Stranger Things” mostra que escolheu esse caminho e que paga o preço com um desgaste considerável da trama e dos personagens.

Hawkins vive, mais uma vez, sob ameaça. Estranhos assassinatos deixam os moradores assustados e exigindo uma resposta das autoridades para os crimes. As suspeitas recaem sobre Eddie (Joseph Quinn), que tem o nome associado a um culto que pratica rituais satânicos. A amizade dele com Dustin (Gaten Matarazzo) e Mike (Finn Wolfhard) faz com que os garotos também sejam vistos com desconfiança.

Não demora para ficar claro que o perigo vem novamente do Mundo Invertido. O responsável pelas mortes é Vecna (Jamie Campbell Bower), uma criatura que consegue penetrar em mentes e aterrorizá-las. Os traumas causados pela morte de Billy (Dacre Montgomery) tornam Max (Sadie Sink) um dos alvos do monstro.

Enquanto uma parte do grupo age para descobrir como deter Vecna, Mike e Will (Noah Schnapp) tentam encontrar Eleven (Millie Bobby Brown), que é levada por Martin Brenner (Matthew Modine) a um laboratório secreto para recuperar os poderes e enfrentar o novo inimigo. Os procedimentos, no entanto, fazem a garota relembrar acontecimentos nebulosos do passado.

Fenômeno desde a primeira temporada, “Stranger Things” sempre apostou na repetição da fórmula que a consagrou para manter o espectador interessado, ainda que com uma ou outra variação. Porém, pela primeira vez, isso tem um impacto na história, que se mostra desgastada. Além de insistir na mesma cartilha, a série não evolui bem os conflitos e transformações dos personagens, que andam em círculos.

Divulgação/Netflix

Em oito dos nove episódios, fica nítida a intenção do roteiro de empurrar os acontecimentos e postergar os desfechos o quanto possível para alongar o sucesso da produção. As tramas do resgate de Jim Hopper (David Harbour) e das voltas ao passado de Eleven são as que mais criam uma “barriga” na série, que só empolga mesmo no encerramento do quarto ano.

“Stranger Things” dá a impressão, também, de que não sabe o que fazer com alguns personagens, especialmente com aqueles que começaram como protagonistas. Mike, Will, Dustin, Lucas (Caleb McLaughlin) e Eleven perderam força na história, que, até por isso, passou a valorizar mais coadjuvantes como Nancy (Natalia Dyer), Steve (Joe Keery) e, até mesmo, Eddie, que entrou agora.

Na temporada, Max é, de longe, a melhor personagem. A garota ganhou complexidade e nuances muito interessantes com o amadurecimento, ao contrário das outras crianças que cresceram diante das câmeras. O destaque que ela passa a ter também é mérito da atriz, que imprime muito bem as angústias e demais sensações conflituosas da jovem.

É preciso mencionar, ainda, um problema com o vilão. Vecna, mesmo agora se apresentando como a principal ameaça da história, impacta menos do que o Demogorgon e o Devorador de Mentes, algo que está relacionado a um esgotamento da escala de ameaça e à construção do roteiro em cima de repetições.

Ainda longe de ser considerado um entretenimento ruim, “Stranger Things” não consegue evitar o desgaste e deixa a sensação de que perdeu a chance de terminar no melhor momento. Querendo espremer a história até só restar o bagaço, a série se arrasta para a quinta e, por enquanto, última temporada contando com a fidelidade dos espectadores. Porém, ela que não abuse dessa boa vontade.

STRANGER THINGS (quarta temporada)

ONDE: Netflix

COTAÇÃO: ★★★ (boa)

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