Séries

“The Umbrella Academy”: o mundo está acabando (de novo)

Renovar conflitos a cada temporada, preservando a espinha dorsal da história intacta e coerente, mais do que um desafio, é uma necessidade para manter o público interessado. Algumas produções, no entanto, escolhem fingir que essa renovação foi feita, quando, na verdade, apenas repetem dinâmicas. É o caso da terceira temporada de “The Umbrella Academy”, que, mais uma vez, coloca os personagens diante do fim do mundo.

Nos episódios lançados recentemente, os irmãos Hargreeves surgem em uma linha temporal em que eles não foram organizados em um grupo por Reginald (Colm Feore). Na verdade, nessa realidade, eles nem mesmo existem, uma vez que as mulheres que dariam à luz a eles morreram misteriosamente. As crianças escolhidas pelo milionário, incluindo Ben (Justin H. Min), o único rosto conhecido, formaram a The Sparrow Academy.

Depois de um primeiro contato conflituoso com os Sparrows, os Umbrellas passam a procurar a maleta que pode tirá-los da linha temporal e os enviar para outra realidade. Há, no entanto, um problema maior a ser superado: a presença dos personagens ali origina o Kugelblitz, uma espécie de buraco negro que começa a destruir o universo.

Enquanto tentam encontrar uma solução para esse novo apocalipse, os membros da The Umbrella Academy também lidam com questões pessoais. Número Cinco (Aidan Gallagher) toma para si a tarefa de encontrar respostas para a crise; Klaus (Robert Sheehan) aproveita a chance de resgatar a relação com Reginald; Allison (Emmy Raver-Lampman) se ressente por ter deixado marido e filha para trás; Luther (Tom Hopper) se apaixona por uma Sparrow; Diego (David Castañeda) reencontra Lila (Ritu Arya); e Viktor (Elliot Page) revê um antigo conhecido e descobre o envolvimento dele com alguns dos acontecimentos.

Se, na segunda temporada, “The Umbrella Academy” conseguiu aprimorar a narrativa e evitar um desgaste da história, o mesmo não se pode dizer do terceiro ano. Ainda que o roteiro tente vender uma renovação de conflito com a chegada de novos personagens e de um apocalipse diferente, o que ele consegue fazer é apenas deixar evidentes as repetições de dinâmicas.

Divulgação/Netflix

Driblada, de alguma forma, na leva anterior de episódios, a falta de criatividade impacta consideravelmente no interesse pela temporada. Também fica clara a inabilidade com que a série trata os personagens, sem conseguir aprofundá-los e apenas transferindo conflitos e funções de um para o outro. Agora, por exemplo, é Luther que experimenta um sentimento mal desenvolvido de isolamento dentro do grupo, algo que Viktor e Klaus já viveram em momentos diferentes.

O atraso deliberado de desfechos, mais conhecido como enrolação, problema que a produção sempre apresentou, segue se fazendo presente. Os episódios centrais, que deveriam abrigar o desenvolvimento da história, não são bem preenchidos e adotam um ritmo moroso. Se as tramas não rendem o suficiente para dez episódios, é melhor planejar temporadas menores do que empurrar acontecimentos com a barriga.

Fez falta à temporada, ainda, quem assumisse as funções da Gestora (Kate Walsh) e da Comissão, que, nos anos anteriores, eram responsáveis por movimentar a trama. Agora, a principal ameaça fica estática e espera pelo confronto com os personagens, menos provocados a sair do lugar e a resolver problemas.

Olhando para o lado positivo, “The Umbrella Academy” segue se beneficiando da estética e do espírito anárquico. Essa última característica, inclusive, influencia nos bons diálogos e em algumas decisões criativas inusitadas. É preciso elogiar, também, a condução delicada e eficiente do roteiro para tratar da transição de gênero de Viktor, transformação que reflete um processo pelo qual Elliot Page passou na vida real.

Certamente, há outras formas de explorar as linhas temporais e os danos causados a elas que não coloquem os personagens sempre na iminência de um apocalipse. “The Umbrella Academy”, no entanto, prefere ignorá-las e segue por um caminho já percorrido, sempre, é claro, tentando disfarçar essa opção. Que a quarta temporada seja mais inspirada e não nos coloque, de novo, para assistir ao fim do mundo.

THE UMBRELLA ACADEMY (terceira temporada)

ONDE: Netflix

COTAÇÃO: ★★ (regular)

Deixe um comentário