Séries

“Pacto Brutal” faz necessária organização de fatos sobre crime marcado por versões

Dentre as várias declarações marcantes da autora Glória Perez sobre o assassinato da filha, Daniella Perez, na série “Pacto Brutal”, chama atenção quando a novelista diz ter certeza que as 18 apunhaladas dadas na jovem de 22 anos eram para ela. Um dos assassinos, Guilherme de Pádua, que atuava ao lado da vítima na novela “De Corpo e Alma”, não se conformava com os rumos que o personagem dele, Bira, tomava na trama. Para uma personalidade narcisista e egocêntrica, aquilo representava um obstáculo rumo a um sucesso que ele julgava merecer.

Ao contrário do que foi feito parecer e da lembrança que muitos têm sobre o crime, que ocorreu há quase 30 anos, Daniella Perez não estava tendo um caso com o assassino. A intérprete de Yasmin, na verdade, fugia das investidas do ator, àquela altura inconformado com o que ele considerava ser uma perda de espaço na novela. Antes da noite do crime, ele já cercava a filha da autora e tentava convencê-la a interceder por ele. Sem abertura para conseguir o que queria, junto com a namorada Paula Thomaz, premeditou o crime sórdido.

O coração era um símbolo importante para a trama de “De Corpo e Alma”. A novela das oito da época discutia a doação e os transplantes de órgãos, tema pouco debatido até aquele momento na TV. O coração de Bettina (Bruna Lombardi), que sofria um acidente e tinha morte cerebral, era doado a Paloma (Cristiana Oliveira), que sofria de problemas cardíacos. Sabendo do transplante, Diogo (Tarcísio Meira), que era apaixonado por Bettina, se aproximava de Paloma pensando que, de alguma forma, ficaria próximo da mulher que amava.

Também é o coração um elemento central do crime bárbaro que vitimou Daniella. Das 18 apunhaladas dadas na jovem, 12 tiveram como alvo a região torácica. Uma das autoridades que investigou o caso fala, logo no início de “Pacto Brutal”, que o coração da vítima chegou a ficar exposto. A importância do órgão na novela e a forma como o crime foi executado podem nos fazer pensar que tudo foi arquitetado exatamente para fazer do símbolo um recado. Naquele 28 de dezembro de 1992, uma vítima teve o coração literalmente exposto, tamanha a selvageria com que foi atacada; e a mãe dela ficaria com o coração dilacerado, em um sentido figurado, mas não menos doloroso.

Em cinco episódios, “Pacto Brutal – O Assassinato de Daniella Perez” organiza todos os detalhes sobre um crime perverso que mobilizou o Brasil e que foi marcado por versões, sendo que, durante muito tempo, algumas delas prevaleceram. Não só havia as várias alegações do assassino, que fez e refez depoimentos à polícia e nunca se escondeu da luz de uma câmera, mas também ganharam espaço as declarações da namorada cúmplice e os julgamentos da sociedade, alimentados pela espetacularização do caso e por uma investigação falha.

Glória Perez: a dor inigualável de uma mãe – Divulgação/HBO Max

Para a organização de tantos fatos, roteiro e direção da série documental escolhem o caminho correto e se atêm aos depoimentos de testemunhas, familiares da vítima, autoridades envolvidas e, claro, aos autos do processo. Ouvir os assassinos não era nada necessário nessa situação, inclusive pelo fato de um deles, dono de uma personalidade psicopata, como analisam especialistas, sempre procurar um palco para contar versões variadas sobre o que aconteceu. “Pacto Brutal” acertadamente não cede esse espaço, mas, infelizmente, outros o fazem até hoje, o que, pasmem, confere um status célebre a tal criminoso.

“Pacto Brutal” mostra, ainda, como a família de Daniella, especialmente Glória e Raul Gazolla, marido da atriz, não puderam viver o luto após o crime para assumir uma investigação, diante de uma polícia omissa, e por conta da exposição que o caso ganhou. O sistema jurídico injusto e a falta de interesse político para tornar o homicídio qualificado um crime hediondo no país também exigiram deles uma disposição incansável e o prolongar desse sofrimento.

Bem amparada por registros de áudio e fotos da época do crime e dos julgamentos dos assassinos, que acabaram entrando em conflito, a produção ganha um tom forte também por conta dos depoimentos. O momento em que Glória diz ter tido vontade de recolher a filha morta de volta ao ventre nos faz partilhar, ainda que em outra proporção, da dor daquela mãe. Perder um filho, sobretudo nessas condições, deve ser um sentimento impossível de mensurar.

Diante das muitas versões que ganharam destaque e se instalaram na memória popular, “Pacto Brutal – O Assassinato de Daniella Perez” assume a necessária função de organizar os fatos e deixá-los registrados de uma vez por todas, algo que faz com muita competência e respeito. Quanto aos psicopatas que, hoje, estão livres, é preciso colocá-los à margem, isolá-los, e não mais oferecer os holofotes que, pelo menos um deles, tanto buscou.

PACTO BRUTAL – O ASSASSINATO DE DANIELLA PEREZ

ONDE: HBO Max

COTAÇÃO: ★★★★★ (excelente)

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