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“Better Call Saul”: ninguém se esconde para sempre

*O texto a seguir contém spoilers.

Para escapar das autoridades após o desfecho de “Breaking Bad”, Saul Goodman (Bob Odenkirk) se esconde atrás da imagem de um homem pacato e sem afetações. O prestativo e aparentemente inofensivo Gene, que aparece logo no episódio piloto de “Better Call Saul”, já era, àquela altura, o segundo disfarce do advogado oportunista. Antes, ele tinha sido James McGill, que, mesmo sendo nome de batismo, representava uma tentativa de camuflagem da verdadeira natureza dele.

Desde a estreia da série derivada, havia uma expectativa para saber se ela alcançaria a produção original. Agora, com a conclusão da sexta e última temporada, fica mais claro do que nunca que “Better Call Saul” conseguiu se colocar no mesmo patamar de “Breaking Bad”. Essa equivalência, contudo, vai além de execução e criatividade. Forjadas pela mesma mente criativa, a de Vince Gilligan, ambas mostram ter, também, a mesma motivação: o interesse pela complexidade humana.

Na primeira metade do sexto ano, “Better Call Saul” se dedica a movimentar os personagens na direção do que já foi retratado em “Breaking Bad”. Ainda galgando os degraus para conquistar o poder que queria, Gustavo Fring (Giancarlo Esposito), mesmo sob a proteção de Mike (Jonathan Banks), acerta definitivamente as contas com Lalo Salamanca (Tony Dalton).

Esse ápice do conflito entre Fring e os Salamanca representa o ponto em que a disputa de território se cruza de vez com o destino do protagonista. O choque desses universos atinge, de forma não planejada, Howard Hamlin (Patrick Fabian) e deixa marcas profundas na parceria entre Goodman e Kim (Rhea Seehorn), que tentavam, a todo custo, macular a reputação do rival.

Um corte seco transporta o espectador para os acontecimentos que sucederam o fim de “Breaking Bad”. Esse epílogo mostra que Goodman não consegue ficar camuflado por muito tempo. O advogado foragido arrisca o disfarce para aplicar mais um golpe e isso o leva a ser capturado. A pose e a esperteza características do personagem, no entanto, o ajudam a barganhar um acordo e, também, o reaproximam de Kim.

“Better Call Saul” reedita a questão que conduziu “Breaking Bad”: as circunstâncias da vida transformam ou revelam uma pessoa? Assim como a original, a série derivada leva a crer que Saul Goodman já era Saul Goodman antes mesmo de adotar esse nome. Essa é a natureza do personagem, a pele com a qual ele se sente confortável, mesmo quando tenta camuflá-la com alguma outra identidade ou quando ações saem do controle.

Divulgação

Enxergar, no último episódio, uma redenção do personagem é se deixar iludir pelos disfarces Gene ou James McGill. É Saul Goodman que age na escolha de um advogado para defendê-lo; na costura do acordo com as autoridades; e, até mesmo, na decisão de jogar tudo para o alto e assumir a culpa pelos crimes cometidos. Ele não faz isso para se redimir, mas sim para atingir um objetivo, que era o de se reconectar a Kim.

Além de mostrar a trajetória de Saul Goodman, a produção também explora, em paralelo, a complexa personalidade de Kim. A advogada, depois de sempre ter andado na linha, demonstra um fascínio pelo mundo do parceiro, por aquela ausência de limites e transgressão de normas. Quando um ato extremo acontece, ela dá alguns passos para trás e se recolhe, no entanto, no fim, sinaliza que está disposta a flertar com a inconsequência novamente.

Ainda que fosse esperado de Gilligan, que concebeu “Better Call Saul” ao lado de Peter Gould, um completo domínio desse universo, ele consegue extrapolar qualquer expectativa. O entendimento daqueles personagens, da história e das possibilidades é impecável, assim como a utilização das lacunas temporais. Para valorizar tanta riqueza, a série apresenta uma sofisticação estética e narrativa que privilegia a construção gradual, os detalhes e a intensidade das emoções.

Quando um roteiro de qualidade encontra um elenco do mesmo calibre, o resultado é uma obra como “Better Call Saul”. Bob Odenkirk, Rhea Seehorn, Patrick Fabian, Giancarlo Esposito, Jonathan Banks e muitos outros são responsáveis por parte importante do sucesso da série. Nos episódios finais, as participações de Bryan Cranston, Aaron Paul, Betsy Brandt e Carol Burnett deram um toque a mais em algo que já era especial.

“Better Call Saul” atingiu o mesmo nível de excelência de “Breaking Bad” e conquistou um justo lugar na história ao lado da produção original. Narrativa e estética arrojadas, personagens fascinantes e um admirável domínio de universo deram o tom da produção, que terminou deixando uma dúvida: até quando James McGill vai conseguir deixar Saul Goodman adormecido? Isso fica, agora, pela nossa imaginação, mas uma certeza existe: a de que ninguém se esconde para sempre, nem dos outros e, especialmente, nem de si mesmo.

BETTER CALL SAUL (sexta e última temporada)

ONDE: Netflix

COTAÇÃO: ★★★★★ (excelente)

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