Canta Pedra, cidade fictícia de “Mar do Sertão”, a novela das seis da TV Globo, é administrada por Sabá Bodó (Welder Rodrigues), um político que já mostrou não ter limites para garantir a reeleição. Logo nos primeiros capítulos, o prefeito se destaca pelas atitudes que toma visando a construção de um açude no munícipio, a grande promessa eleitoral dele.
Para dar início à obra, Sabá Bodó quer desapropriar as terras de Timbó (Enrique Diaz), um lavrador humilde que herdou aquele pedaço de chão do pai, mas não tem a escritura. O prefeito, inclusive, obriga o morador a assinar um documento que cede o terreno ao município fingindo ser um contrato de trabalho. A protagonista Candoca (Isadora Cruz), no entanto, acaba com a farsa e rasga o papel.
Professora na escola de Canta Pedra, Candoca também se revolta quando Sabá Bodó desvia recursos da educação para a construção do açude e deixa, inclusive, os alunos sem merenda. A personagem acaba demitida pelo prefeito por agir em oposição à obra.
Água é sinônimo de poder em Canta Pedra e isso explica o empenho do prefeito em ter uma fonte do recurso natural. Ele espera, com isso, enfraquecer a influência do coronel Tertúlio (José de Abreu), um ex-aliado político que é dono da fazenda onde fica localizado o único açude da região.
Prefeitos de cidades fictícias costumam funcionar, nas novelas, como alegorias que retratam ou criticam tipos e comportamentos da política brasileira. Geralmente, esses personagens são construídos com um registro cômico e, quando a sátira é bem desenvolvida, estimulam risadas que vêm acompanhadas de reflexões importantes.
Além de Sabá Bodó, a teledramaturgia tem outros prefeitos que refletem as piores práticas da nossa política. Com menos frequência, assim como na vida real, também aparecem aqueles bem-intencionados. Vamos relembrar alguns desses personagens:

Odorico Paraguaçu (O Bem-Amado – 1973)
Odorico Paraguaçu (Paulo Gracindo) se elege prefeito com a promessa de construir um cemitério em Sucupira. Só que ninguém morre na cidade e, por isso, o campo-santo nunca é inaugurado. Para não perder apoio, Odorico arquiteta, então, uma série de tramoias, como facilitar a volta do matador Zeca Diabo (Lima Duarte) ao município. Mas, nem isso dá muito certo.
Criado originalmente para o teatro, Odorico é a representação mais clássica do que há de pior na política brasileira. Corrupto e demagogo, o personagem é construído por Dias Gomes como uma critica ao coronelismo e aos abusos que visam a perpetuação do poder. O prefeito comete uma série de atrocidades ao longo de “O Bem-Amado”, como impedir a chegada de vacinas para o controle de uma epidemia de tifo em Sucupira. Bem distante da realidade, não é?

Ypiranga Pitiguary (A Indomada – 1997)
Prefeito de Greenville, Ypiranga (Paulo Betti) quer que a administração dele entre para a história por trazer o progresso e tornar a cidade conhecida. É um político obcecado pela realização de obras públicas. Uma delas, inclusive, dura tanto e cava um buraco tão grande que faz uma pessoa chegar no Japão. E, isso não é intriga da oposição, aconteceu mesmo na novela de Aguinaldo Silva e Ricardo Linhares.
Ypiranga segue os conselhos políticos do sogro, o deputado Pitágoras Mackenzie (Ary Fontoura), e é fiscalizado de perto pela juíza Mirandinha (Betty Faria), a principal opositora do prefeito e responsável por barrar alguns dos decretos absurdos dele. Em 2018, o personagem ressurgiu em “O Sétimo Guardião” como dono de uma empreiteira.

Vivaldo (Chocolate com Pimenta – 2003)
Para impedir que a fábrica de chocolates “Bombom” deixe Ventura, Vivaldo (Fúlvio Stefanini) se envolve em um complô contra Ana Francisca (Mariana Ximenes), a herdeira do negócio. O prefeito não quer abrir mão dos impostos e outros ganhos que têm com a fábrica, por isso, incentiva que a viuvinha, como Ana é chamada, se case com o sobrinho dele, Danilo (Murilo Benício).
Entre os deslizes do prefeito, também está o hábito de se encontrar com mulheres no próprio gabinete. É claro que Vivaldo sempre dá um jeito de esconder os casos da opinião pública e da primeira-dama, Bárbara (Lilia Cabral). Para sorte do público, as maracutaias do prefeito sempre dão errado.

Lua Viana (Saramandaia – 1976/2013)
Em meio a um plebiscito para decidir se a cidade de Bole-Bole vai mudar de nome, o prefeito Lua Viana prefere ficar neutro. Ele não toma partido nem dos que defendem a tradição e nem dos “mudancistas”, que querem que o município passe a ser conhecido como Saramandaia. Por essa posição imparcial, é acusado constantemente de ficar em cima do muro.
Interpretado por Antonio Fagundes e Fernando Belo, respectivamente, na primeira e segunda versão de “Saramandaia”, Lua Viana quer mostrar ser diferente do antecessor, Zico Rosado (Castro Gonzaga/José Mayer), cuja administração foi marcada por corrupção. O prefeito adota o tom conciliador mesmo namorando Zélia (Yoná Magalhães/Leandra Leal), a principal inimiga de Zico, e sendo irmão de João Gibão (Juca de Oliveira/Sérgio Guizé), o vereador responsável pela proposta de mudança de nome da cidade.

Aderbal Pimenta (Babilônia – 2015)
Prefeito de Jatobá, Aderbal (Marcos Palmeira) sustenta uma imagem de conservador e religioso, mas não passa de um falso moralista. Usa a religião e os valores familiares para esconder a roubalheira e os casos extraconjugais. Mantém uma casa modesta na cidade para mostrar que está próximo dos eleitores, mas esconde de todos que vive em um apartamento de luxo no Rio de Janeiro.
Com o apoio irrestrito da mãe, Consuelo (Arlete Salles), Aderbal planeja ascender ao governo do Estado. Ele chega a ganhar a eleição, mas é preso por corrupção e nem assume o posto. Quem fica com o cargo é Consuelo, vice da chapa, que chega a ser investigada por uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI).

Demóstenes Maçaranduba (Fera Ferida – 1993)
O prefeito de Tubiacanga age como se fosse o dono da cidade. Além de comandar um governo corrupto, Demóstenes Maçarantuba da Costa (José Wilker) também está envolvido em uma tragédia do passado de Raimundo Flamel (Edson Celulari), que volta à cidade disposto a se vingar dele e de outros poderosos da região.
Demóstenes ainda esconde de todos um caso com Rubra Rosa (Susana Vieira), a esposa do vereador Numa Pompílio de Castro (Hugo Carvana). Quando descobre que Flamel consegue transformar ossos em ouro, o prefeito incita a população de Tubiacanga contra o personagem e acaba provocando a destruição da cidade.

Reginaldo (Senhora do Destino – 2004)
Populista e demagogo, Reginaldo (Eduardo Moscovis) vira prefeito de Vila São Miguel depois de defender a emancipação do território, localizado na Baixada Fluminense. Ele, no entanto, pouco se importa com o bem-estar dos moradores e só usa a política para enriquecer. A primeira-dama Viviane (Letícia Spiller) é tão ambiciosa quanto o marido.
Ao longo da novela, Reginaldo e Viviane se envolvem em muitos crimes e sempre são confrontados por Maria do Carmo (Susana Vieira), mãe dele e empresária respeitada na região. No final, o prefeito é denunciado e resolve fazer um comício para tentar reverter a imagem, mas acaba hostilizado, leva uma pedrada na cabeça e morre.

Florindo Abelha (Roque Santeiro – 1985)
O prefeito de Asa Branca é um dos poucos na cidade que sabe a verdade sobre Roque Santeiro (José Wilker), tido como santo milagreiro pela população. Florindo Abelha (Ary Fontoura) sustenta a imagem de herói de Roque para tornar o município cada vez mais próspero.
Florindo é um pau-mandado de Sinhozinho Malta (Lima Duarte) e Viúva Porcina (Regina Duarte), os poderosos de Asa Branca que também se beneficiam do falso mito de Roque Santeiro. É dominado, ainda, pela esposa Pombinha (Eloísa Mafalda), uma ferrenha defensora da moral e dos bons costumes na cidade.

Sassá Mutema (O Salvador da Pátria – 1989)
Boia-fria que vive da colheita de laranjas, Sassá Mutena (Lima Duarte) é usado para abafar um caso extraconjugal do deputado Severo Blanco (Francisco Cuoco). A história se complica e Sassá vira o principal suspeito de um duplo assassinato. O personagem, no entanto, prova ser inocente e ganha popularidade, chamando a atenção de políticos locais.
Tido como manipulável pelos aliados, Sassá vira prefeito de Tangará, mas surpreende a todos ao romper com os políticos que o apoiaram para assumir uma posição de independência à frente do município.
