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“Black Bird” e a perturbadora proximidade de uma mente perversa

Quando tomamos conhecimento de um crime hediondo, como um assassinato, por exemplo, além do horror, é comum termos dificuldade de entender a lógica da pessoa que está por trás dessa perversidade. Bom, pelo menos é assim para quem não se assemelha ao criminoso. Se esse contato estabelecido à distância já é perturbador, imagine quando é preciso mergulhar nessa mente.

“Black Bird”, minissérie disponível na Apple TV+, trata exatamente do quão assustadora pode ser essa proximidade para alguém. Jimmy Keene (Taron Egerton) é um traficante de drogas que, depois de condenado a 10 anos de prisão, recebe uma proposta do FBI. Se conseguir arrancar uma confissão de Larry Hall (Paul Walter Hauser), suspeito de cometer uma série de assassinatos, ele ganha a liberdade.

Hall é investigado pelo desaparecimento de meninas em diversas cidades norte-americanas. A aparência frágil e o fato de ser considerado uma pessoa que faz confissões para chamar atenção levam alguns policiais a acreditar na inocência dele. Porém, o investigador Brian Miller (Greg Kinnear) e a agente Lauren McCauley (Sepideh Moafi) pensam diferente.

As autoridades conseguem manter Hall preso por um tempo, mas precisam de uma confissão sobre onde os corpos foram enterrados para mantê-lo encarcerado definitivamente. Infiltrado na penitenciária, reservada a presos que precisam de acompanhamento psicológico, Keene tem a função de ganhar a confiança do suspeito e conseguir as informações que a polícia necessita.

Esse não é, no entanto, o único desafio de Keene, que ainda precisa esconder de todos o real motivo para ter sido transferido para aquela penitenciária. No período em que fica preso ali, o personagem lida com a perseguição de um guarda e tenta não contrariar a autoridade de Vincent Gigante (Tony Amendola), que exerce um papel de mandachuva entre os presos.

Inspirada em uma história real, “Black Bird” constrói uma narrativa que deixa o espectador vidrado. A minissérie não se apressa em promover o encontro de Keene e Hall, mesmo tendo apenas seis episódios. Essa aproximação é feita aos poucos, sem açodamento, o que valoriza as trajetórias e peculiaridades de cada personagem. Quando eles finalmente estabelecem contato, a produção imprime tensão e medo, sensações que se sobressaem mesmo sob um aparente convívio amigável.

Divulgação/Apple TV+

Para estabelecer uma conexão com Hall, Keene percebe que precisa ir além de uma simples camaradagem. Para tentar demonstrar que compartilha dos mesmos gostos e lógica do vizinho de cela, o personagem flerta com essa perversão e isso o desestabiliza. Simular essa identificação exige que ele ultrapasse certos limites, ainda que isso seja feito apenas no campo das ideias. Mesmo tendo as próprias questões e pecados, Keene fica perturbado por apenas molhar os pés naquele oceano de monstruosidades.

Junto com Keene, o espectador também vai se aprofundando nas nuances da personalidade de Hall com o caminhar dos episódios. A infância do personagem e a forma como ele se relacionava com as vítimas são elementos importantes da história, mas, é bom que se diga, não são usados para justificá-lo. Em nenhum momento, “Black Bird” cai na armadilha de romantizar o serial killer. O que o roteiro quer é mostrar, com precisão, que a crueldade humana não é um elemento extraordinário, mas que vive à espreita e disfarçada em uma pessoa comum.

A minissérie aborda, ainda, como a masculinidade tóxica influencia outros comportamentos repulsivos. Estejam presentes na criação paterna ou nas pressões sociais, o machismo e a misoginia são componentes de diversos crimes semelhantes aos cometidos por Hall e reflexos de uma cultura nociva. A relação com as mulheres, determinante para fortalecer o elo entre os personagens, é revista por Keene a cada contato que ele tem com a visão do serial killer.

O trabalho de Taron Egerton como Jimmy Keene merece elogios. O ator vai da autoconfiança e do poder de sedução, características do personagem no início, ao completo pavor provocado por esse teste de limites feito nas conversas com o serial killer. Paul Walter Hauser também merece aplausos pelo trabalho, especialmente pelos momentos em que a aparente fragilidade de Hall dá lugar, quase instantaneamente, aos aspectos monstruosos dele.

“Black Bird” utiliza uma narrativa tensa e detalhista para revelar como pode ser perturbador estar próximo de uma mente tão perversa, escondida sob a aparência mais ordinária e inofensiva possível. Mais do que isso, também mostra como esse contato testa limites e faz alguém encarar os próprios demônios. Afinal, como já escreveu o filósofo alemão Friedrich Nietzsche, olhar longamente para um abismo faz com que ele olhe de volta para você.

BLACK BIRD (minissérie em seis episódios)

ONDE: Apple TV+

COTAÇÃO: ★★★★ (ótima)

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