Se listarmos as melhores séries de comédia de todos os tempos, vamos perceber pontos em comum entre duas delas. Além de serem escritas por sagazes mentes femininas, Amy Sherman-Palladino e Phoebe Waller-Bridge, “The Marvelous Mrs. Maisel” e “Fleabag” trazem protagonistas que transgridem convenções, cada uma a seu modo. Considerando as épocas em que estão localizadas, podemos dizer que, lá nos anos 50 e 60, Miriam (Rachel Brosnahan), a protagonista da primeira, andou para que a personagem central da segunda pudesse correr nos dias atuais.
No quarto ano de “The Marvelous Mrs. Maisel”, agora ambientada nos anos 60, Miriam passa por um momento difícil na carreira. Depois de ser dispensada da turnê do cantor Shy Baldwin (Leroy McClain) e da repercussão do episódio, a personagem encontra um mercado resistente em contratá-la para shows de stand-up. Esse período de baixa acontece justamente quando ela assume uma série de compromissos financeiros e retoma o alto padrão de vida que tinha.
Miriam leva os pais, Rose (Marin Hinkle) e Abe (Tony Shalhoub), para morar com ela e logo encontra a primeira dificuldade para se estabelecer como uma mulher separada e provedora. Ninguém, por exemplo, aceita disponibilizar crédito para as compras da casa da personagem, uma vez que ela não é mais esposa de Joel (Michael Zegen).
Às voltas com a organização de um espaço que sirva de escritório para agenciamento de talentos, Susie (Alex Borstein) também se preocupa com a repercussão do desentendimento com Shy. A solução para os problemas surge por iniciativa de Miriam, que passa a se apresentar em um clube de striptease. Entre um número e outro, ela sobe ao palco e faz o público, majoritariamente masculino, rir até que a próxima stripper esteja pronta atrás das cortinas.
A escolha de Miriam, no entanto, escandaliza a família e até ameaça a reputação e os negócios de Rose, que passa a atuar como casamenteira da comunidade judaica. No novo trabalho, a protagonista é, inicialmente, subestimada por colegas e espectadores, mas enfrenta essa situação com humor e cabeça erguida. Não demora para ela conquistar o próprio espaço e até mudar o perfil do público do clube.

A transgressão da protagonista, que desafia pensamentos e situações estabelecidas, continua sendo uma base importante para “The Marvelous Mrs. Maisel”. Nessa nova leva de episódios, Miriam desafia o convencional para mostrar que pode se apresentar em qualquer lugar, sem contar a iniciativa de profissionalizar o ambiente e exigir que as strippers sejam tratadas com respeito pelos homens que cuidam do negócio.
O texto também é um dos principais trunfos da série. Diálogos inspirados e até alguns momentos de verborragia, além de arrancarem risadas genuínas, dão um ritmo ágil às sequências. As tramas que movimentam os personagens continuam mantendo o interesse pelos episódios, sendo a única exceção a história de Susie, que perdeu força e até pareceu perdida em alguns momentos.
Rachel Brosnahan continua ótima dando vida a essa comediante que enfrenta com humor e coragem vários obstáculos para se firmar em um meio predominantemente masculino. Igualmente bons são Tony Shalhoub e Marin Hinkle, que “roubam” cada cena em que aparecem. Alex Borstein, mesmo prejudicada pelos rumos da personagem, também tem bons momentos.
Rumo à quinta e derradeira temporada, “The Marvelous Mrs. Maisel” não perde mais o lugar que conquistou entre as melhores comédias já feitas. Assim como fez Phoebe Waller-Bridge, que também colocou “Fleabag” nessa lista, Amy Sherman-Palladino reforça, através da jornada transgressora de Miriam, a força do talento, da coragem e da inteligência das mulheres.
THE MARVELOUS MRS. MAISEL (quarta temporada)
ONDE: Amazon Prime Video
COTAÇÃO: ★★★★ (ótima)
