A nova versão de “Pantanal”, exibida no horário das 21 horas da TV Globo, não para de colecionar feitos. O remake do clássico de 1990 não só recuperou a audiência da faixa, hoje acima dos 30 pontos, como também pauta conversas, mobiliza usuários de redes sociais e estimula a produção de outros conteúdos. Em suma: o principal produto de teledramaturgia estoura a “bolha noveleira” e volta a fazer parte do dia a dia do espectador.
Há quase três meses no ar, a adaptação de Bruno Luperi repete o efeito da versão original, assinada por Benedito Ruy Barbosa, e já desponta como um fenômeno da nossa TV. E não estamos falando apenas de corresponder à audiência que a emissora espera ter, considerando a realidade atual de mais concorrência e novos hábitos de consumo do espectador. É algo além disso e que passa pelo envolvimento do público com a história e os personagens; pelos debates que provoca; e pela influência, por exemplo, na moda e nos costumes.
A versão de “Pantanal” de 2022 se junta a outras novelas, entre elas, a versão original, na lista de fenômenos da teledramaturgia brasileira. Levando em conta esse sucesso, vale a pena relembrar mais folhetins que entraram para a história pela audiência e mobilização que causaram.

O Direito de Nascer (1964)
Adaptada por Talma de Oliveira e Teixeira Filho, a partir de um texto cubano, a novela, que já era um sucesso incontestável no rádio, é considerada um marco da teledramaturgia nacional. Melodrama puro, a história mistura amor proibido e relações familiares com temas considerados polêmicos, como o aborto.
“O Direito de Nascer” turbinou a audiência da TV Tupi e, também, da TV Rio, que retransmitia o folhetim para os cariocas. O sucesso foi tanto que, segundo o livro “Almanaque da TV”, de Bia Braune e Rixa, após o fim da novela, o elenco desfilou em carros de bombeiros pelas ruas de São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro, além de lotar estádios. A história também deu origem a uma marchinha de carnaval.

Beto Rockfeller (1968)
A novela de Bráulio Pedroso, também levada ao ar pela TV Tupi, não foi apenas um sucesso de público. “Beto Rockfeller” também foi um fenômeno para o gênero, pois impulsionou autores e emissoras a buscarem uma linguagem mais brasileira e focada na realidade do país para as tramas.
Concebida a partir de uma ideia de Cassiano Gabus Mendes, grande autor e executivo de televisão, “Beto Rockfeller” ficou mais de um ano no ar e terminou com 230 capítulos exibidos, o que provocou problemas nos bastidores devido ao volume de trabalho. Mesmo assim, a novela fez história e influenciou muito do que vemos hoje nas produções do gênero.

Irmãos Coragem (1970)
Escrita por Janete Clair, “Irmãos Coragem” é outro caso de fenômeno que não só conquistou audiência, como também deixou marcas na produção de teledramaturgia que viria depois. Inspirada em obras do teatro e da literatura, como “Mãe Coragem”, de Bertolt Brecht, e “Irmãos Karamazov”, de Fiodor Dostoiévski, a autora criou um faroeste à brasileira que mobilizou os espectadores.
Naquela época, o gênero ainda era muito associado às mulheres, mas “Irmãos Coragem” fez os homens passarem a admitir que viam novela. Segundo o site “Memória Globo”, a trama deu mais audiência do que a final da Copa do Mundo de 1970, disputada entre Brasil e Itália. Multidões também surpreendiam o elenco, que tinha nomes como Tarcísio Meira e Glória Menezes, com manifestações de carinho pelos personagens.

Selva de Pedra (1972)
Mais uma vez, Janete Clair mobilizou a audiência com uma história. “Selva de Pedra”, que teve 243 capítulos exibidos, foi um acontecimento televisivo. A história de ascensão social de Cristiano Vilhena (Francisco Cuoco) e os efeitos da ambição no amor do protagonista por Simone (Regina Duarte) deixou o público grudado em frente à TV.
O capítulo em que é revelado que Simone assumiu a identidade de Rosana Reis após ser dada como morta atingiu um índice histórico. De acordo com o livro “Almanaque da TV”, no Rio de Janeiro, a cada 100 domicílios, 77 estavam sintonizadas na novela e 23 estavam com os aparelhos de televisão desligados, o que garantiu 100% da audiência.

Dancin´ Days (1978)
A estreia de Gilberto Braga no então chamado horário das oito é um exemplo de sucesso que extrapolou os números e ganhou as ruas. Com a disputa entre as irmãs Júlia Matos (Sônia Braga) e Yolanda Pratini (Joana Fomm), “Dancin´ Days” levou a moda das discotecas para o dia a dia do público.
As mulheres passaram a adotar o figurino de Júlia, concebido pela figurinista Marília Carneiro, que incluía bustiê, sandália alta e as famosas meias de lurex. A temática da discoteca, conforme relatam o diretor Daniel Filho e o executivo José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, nos livros “Circo Eletrônico” e “O Livro do Boni”, foi introduzida para trazer novidade à obra e acabou impulsionando essa moda no país.

Roque Santeiro (1985)
Dez anos depois de ter sido censurada, a novela de Dias Gomes e Aguinaldo Silva levou para o horário das oito um “suco” de Brasil e empolgou o público. Asa Branca, a cidade fictícia de “Roque Santeiro”, representava um microcosmos do país e abordava temas como a exploração da fé e o uso da política para obtenção de benefícios particulares.
“Roque Santeiro” virou mania nacional e chegou a registrar 100% de audiência em alguns capítulos, segundo o livro “Almanaque da TV”. De acordo com o site “Memória Globo”, jornais de Recife da época destacaram que candidatos às eleições para deputado chegaram a cancelar comícios no horário em que a novela era exibida.

Vale Tudo (1988)
Levando uma discussão sobre ética para o principal horário de novelas da TV Globo, Gilberto Braga, que dividiu a autoria da trama com Aguinaldo Silva e Leonor Bassères, criou mais um fenômeno que mobilizou o país. Antenada com a realidade, “Vale Tudo” virou tema de discussão nos lares dos espectadores.
As muitas cenas icônicas criadas pelos autores mantiveram o público fiel. A audiência e a repercussão foram turbinadas quando, faltando 13 capítulos para o fim, um mistério foi inserido à trama: quem matou Odete Roitman (Beatriz Segall)? A dúvida estimulou bolsas de apostas pelo país e a resposta só foi revelada no último capítulo.

Tieta (1989)
Trazendo uma metáfora sobre o fim da censura e a volta da liberdade de expressão, a adaptação do romance de Jorge Amado é outro marco da TV. “Tieta”, assinada por Aguinaldo Silva, Ricardo Linhares e Ana Maria Moretzsohn, teve uma repercussão gigantesca e até cogitou-se uma continuação em seriado.
Personagens marcantes e um texto carregado de humor deram o tom da obra, que conseguiu imprimir leveza até quando explorava temas mais sérios. Até hoje, “Tieta” tem uma das maiores audiências do horário nobre. Na época, para impedir que a história tivesse continuação em uma série, Aguinaldo Silva terminou a novela com a cidade de Santana do Agreste soterrada após uma tempestade de areia.

O Rei do Gado (1996)
Levando o campo, mais uma vez, para o principal horário de novelas, Benedito Ruy Barbosa, depois dos sucessos com “Pantanal” e “Renascer”, discutiu reforma agrária, relações familiares e a política brasileira em “O Rei do Gado”, que conquistou altos índices de audiência na época.
Os debates levantados pela novela repercutiram na imprensa e também ganharam espaço no dia a dia dos espectadores. A elogiada primeira fase da trama é um dos trabalhos mais primorosas que a nossa teledramaturgia já produziu e essa qualidade foi reconhecida através de vários prêmios, inclusive internacionais.

Senhora do Destino (2004)
Depois de uma sequência de trabalhos de realismo fantástico, Aguinaldo Silva apostou em uma trama realista e que contava com diversos elementos biográficos. “Senhora do Destino” partia do sequestro de uma criança em plena época do golpe militar e, depois, saltava no tempo para mostrar a busca incessante da mãe pela filha.
Silva criou tipos que entraram para a história da telenovela brasileira, como a vilã Nazaré (Renata Sorrah), ainda muito presente em memes que tomam conta da internet; e o bicheiro Giovanni Improtta (José Wilker). A audiência foi enorme, só não foi maior que a de “O Rei do Gado”, e a repercussão idem.

Avenida Brasil (2012)
Percebendo uma mudança de hábitos de consumo, o autor João Emanuel Carneiro desenvolveu uma história que colocava a classe média como protagonista, característica que influenciou os cenários, a trilha sonora e até a direção. “Avenida Brasil” era uma clássica história de vingança que ganhou uma roupagem diferente, antenada com o contexto social do país.
Essas características produziram um dos últimos fenômenos do gênero e a força do folhetim voltou a ser destaque, inclusive, na imprensa internacional. O jornal britânico “The Guardian” destacou uma mudança de agenda da ex-presidente Dilma Rousseff para não coincidir com o último capítulo de “Avenida Brasil”; e veículos como a revista “Forbes” e o jornal “The Washington Post” ressaltaram que a grande audiência da trama poderia causar uma sobrecarga no fornecimento de energia elétrica, o que não aconteceu.
